BEM-VINDO AO BLOG DE ELIANA BELO
Arquivo virtual de História, Memória e Patrimônio de Indaiatuba (SP) e região.*

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Tipos Populares de Indaiatuba Antiga V (continuação)

texto de Ejotaele (continuação deste daqui)


O Jaime Pires, entre filósofo e cínico, era vivo como uma lebre; vivos e irrequietos eram seus irmãos Godo, Nabor e Arlindo, sempre prontos para qualquer "briguinha".

O Osvaldo Soares era inteligente e fértil em todas as disciplinas, prestigiado por isso, pelos mestres.
O Pasqualino Ungaretti, sempre entretido a fazer macaquinhos de cera durante as aulas, no que era imitado por Alcídio Quadros, menino terrível como um símio.

Isso, é bem de ver, irritava o professor neste tempo, aí pelo ano de 1900, era o Sr. Carlos Tanclér nosso primeiro mestre, ao qual, justo é que rendamos a nossa homenagem.

Apraz-nos, sobremaneira, nesta altura, abrir um parênteses, para evocarmos com admiração e viva lembrança, aqueles que proporcionaram os primeiros haustos de alimento espiritual.

Ressaltemos em primeiro lugar, a pessoa sempre estimada do Professor Galdino Chagas prestando-lhe o tributo de admiração que o seu valor se impôs. Foi um dos decanos do Ensino Público, figura de proa da instrução pública local, com um valioso contingente de serviços prestados à coletividade indaiatubana e cujo zelo paternal pelos alunos, lhe assegurou, com justa recompensa, o reconhecimento de Indaiatuba, para o julgamento sereno e justo da posteridade.

Vem, a seguir, pela ordem de antiguidade, os saudosos professores Coelho e Dória.

D. Carmelina e D. Claudina, que há longos anos dormem o sono da eternidade, as boníssimas Professoras Esmeralda Fonseca, Áurea de Lima e Ester Vieira Branco, nomes que refulgiam no magistério público.

D. Jandira, a meiga professorinha, de espírito bondoso, de afetividade quase sobre humana. Lembramos muito bem de seu repúdio em se matar até uma simples formiga... De D. Olímpia Fonseca, implacável no impor seu método disciplinar, ninguém dos nossos coevos terá esquecido. pela sua intransigência, os alunos a subestimaram com alguma razão.

D. Laura, se os seus dotes físicos não a favoreciam lá muito, era, em compensação, simpática e dona de espírito invulgar que animava seus sentimentos de bondade franciscana.

Fazendo alarde de sua elegância, porém menos acessível no trato, era D. Antonieta, professora da seção feminina.

Os professores Nestor e Quirino Ferreira, eternamente joviais, eram amigos dos alunos, principalmente o último, que até nas vias públicas fazia coro com as travessuras dos garotos.
D. Maria José e D. Helena de Campos muito queridas pelos alunos, ornamentos de bondade e delicadeza são nomes que já estão ligados ao nosso patrimônio social e cultural.

A D. Cecília foi outra professora que honrou Indaiatuba no exercício do Magistério. Outras, já no término de nossa jornada escolar como as Professoras Ana Mazili e Elzira de Oliveira, cujos predicados de escola se fizeram enaltecer.

Por fim, o inolvidável e saudoso Professor João Pinto Correia, o padrão de virtudes, em cujo exercício do magistério foi um dos expoentes, tal o seu descortino didático a par de uma incomparável docilidade no trato com os alunos. Dedicou o professor Correia grande parte de sua vida à santificada tarefa de trabalhar pelo bem de seus semelhantes, como verdadeiro apóstolo.

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(Continua)

domingo, 9 de dezembro de 2012

Em seu 182o. aniversário, a jovenzinha Indaiatuba recebe importante presente de empresários em sua belíssima Matriz

É com muita satisfação que no 182o. aniversário de nossa querida Indaiatuba, essa tão jovenzinha cidade de nosso coração, faço este post registrando um precioso presente que nossa cidade recebeu: a pintura da Matriz Nossa Senhora da Candelária - feita pela iniciativa privada - mas precisamente pelos empresários da Maxxis Construções e Exsa Desenvolvimento Urbano com apoio da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, Tintas Polo e Bureau de Comunicação, em obra supervisionada pelo arquiteto Eduardo Gomes.

A Matriz Nossa Senhora da Candelária é um dos nossos patrimônios históricos já tombados. Como tal, precisa ser conservada em seu estado atual, sem reformas drásticas que modifiquem seu aspecto. Assim deverá ser apenas restaurada e mantida como ela é.

Originalmente feita de taipa, a contrução estava com um aspecto ruim, também por causa de manchas de umidade.

O trabalho teve início no dia 17 de novembro e terminou ontem, dia 8, quando os últimos andaimes foram retirados, conforme fotos que se vê abaixo, cumprindo-se o prazo determinado pelos patrocinadores, que tinha previsto terminar a tempo das comemorações do aniversário da cidade, hoje, domingo dia 9.

As empresas informaram que a proposta é uma "oportunidade de compensar a comunidade pelos transtornos que a obra vai causar, mesmo que por um curto período de tempo", referindo-se a um prédio que será construído na esquina do Largo da Matriz. Seria uma espécie de "ajuste de conduta voluntário", feito previamente pela empresa por causa de impactos ambientais que serão causados no entorno, que com certeza incomodará a vizinhança. Um dos representantes das empresas patrocinadoras ddeclarou ainda que "entende que o cotidiano das pessoas vai ser alterado durante as obras e esse impacto as empresas responsáveis pela obra precisam compensar de alguma forma muito positiva".
O padre Marcelo Previatelli, pároco da matriz de Nossa Senhora da Candelária, acolheu muito bem a idéia e se disse surpreso com a iniciativa. “Tomara que outros empresários se animem e sigam esse exemplo de trabalhar pela preservação da memória de Indaiatuba”, arrematou.
Veja abaixo algumas das imagens do "presente" que Indaiatuba recebeu desses empresários.
Não há outro meio de encerrar esse texto, senão com a frase "que sirva de exemplo".




quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Pró-Memória indica dez imóveis para tombamento pelo Patrimônio Histórico

A Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, por meio do Conselho Municipal de Preservação, deu início recentemente ao processo de tombamento pelo patrimônio histórico e cultural do município para dez imóveis considerados de interesse de preservação pelo seu valor histórico e arquitetônico.

Os bens foram indicados após deliberação unânime do conselho, são eles:

Casa Número Um,

Antiga Residência de Antônio Ambiel (Alameda Antonio Ambiel),

Antiga Estação Ferroviária Urbana de Indaiatuba,

Muro de Taipa (Rua Padre Luis Soriano),

Caixa de Água (Praça Rotary),

Edifício da EEPSG Randolfo Moreira Fernandes (Praça Dom Pedro II) e

Chafariz (Praça Elis Regina).


Imagem da inauguração da Caixa de Água (Praça Rotary)
Dia 2 de fevereiro de 1937



 De acordo com a Lei Municipal nº 3.328, de 11 de junho de 1996, “considera-se bens de valor cultural aqueles que se distinguem dos demais pelas suas características histórica, artística, estética, arquitetônica, urbanística, documentária, bibliográfica, museográfica, ecológica, paisagística, arqueológica, ambiental ou referencial”.

Sete imóveis de Indaiatuba são atualmente reconhecidos como bens de valor histórico e cultural para o município, conforme o Decreto nº 10.108 de 17 de dezembro de 2008:
Antiga sede da Fazenda Engenho D’Água,
Matriz Nossa Senhora da Candelária,
Casa Paroquial,
Casarão Pau Preto,
Busto de Dom José de Camargo Barros,
Caixa D’água do Casarão e
Hospital Augusto de Oliveira Camargo.

Para o superintendente da Fundação Pró-Memória, Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus, a preservação dos imóveis históricos, que mantém total ou parcialmente suas características arquitetônicas e artísticas, "é uma forma de conservar e valorizar a identidade do município".



Sobre educação patrimonial ler:
 http://www.unifil.br/portal/arquivos/publicacoes/Livro_Educacao_Patrimonial.pdf



Casarão Pau Preto - imagem de 1940

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

PRÓ-MEMÓRIA EXIBE MOSTRA DE NOTÍCIAS QUE ABORDARAM ESCRAVIDÃO NO BRASIL


Para marcar o “Dia Nacional da Consciência Negra”, celebrado dia 20 de novembro, a Fundação Pró-Memória de Indaiatuba exibirá de 19 a 25 de novembro uma mostra de notícias e artigos publicados por jornais locais abordando aspectos relacionados à escravidão no Brasil.
 
Há ainda uma cópia do Jornal Diário Popular datado de 14 de maio de 1988, que traz anúncios e manifestações intelectuais da época a respeito da ‘Lei Áurea’.
 
Os documentos pertencem ao acervo do Arquivo Público Municipal.
 
A mostra poderá ser conferida das 9h às 17h no Casarão Cultural Pau Preto, situado à Rua Pedro Gonçalves, 477, Jardim Pau Preto.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Tipos Populares de Indaiatuba Antiga IV (continuação)

texto de Ejotaele (continuação deste daqui)
 
 
Havia ainda o Lúcio, meio bufão, meio abobalhado. Por ser muito beato, era infenso às blasfêmias. Alguém que blasfemasse, ao pé dele, deliberadamente ou não, o nosso Lúcio persignava-se todo. Sua assiduidade à igreja, a "eza" como ele dizia, era notável, não perdendo uma só cerimônia religiosa. E o que mais se fazia notar, era o respeito e devoção pelo seu culto especial a São Benedito.
 
Bepino foi uma figura singularíssima, fino e inteligente, mas bebericão e desatrelado da vida. Dizia-se "estatuário", pois fazia imagens santas entalhadas em madeira. Os santos, feios e horríveis embora, eram feitos com alguma arte e algumas entalhações eram até engenhosas. Bepino, lá pelas tantas, empunhava uma sanfona de oito baixos e punha-se a executar pelas ruas cançonetas provinciais italianas, antecipadas geralmente pelo dobrado "Capitão Caçula".
 
Não podemos esquecer de dois tipos verdadeiramente curiosos, que gozaram, também eles, dos foros da popularidade. Esses foram o Benedito Boiungo e Luiz Caixeiro. O primeiro era um desses indivíduos esquisitos, mas de boa índole. Tinha aversão ao apelido que, não se sabe por arte de quem, foi inventado. Gostava-se de trajar-se bem, mas berrantemente; as vezes aparecia em público com colarinho duro, tão alto, que mal podia mover a cabeça... O segundo, bom vivente, solteirão mais desajeitado do que por outras razões, era alegre e ingênuo. Nem por isso deixava de ter suas namoradas imaginárias e estas, por sinal, eram as jovens mais bonitas de Indaiatuba! Luiz Caixieiro possuía uns bens nutridos bigodes que lhe davam feição características e que eram seus predicados físicos, sem falarmos dos trejeitos que imprimia ao seu curioso modo de andar de salta em pocinhas. De quando em vez, Luiz Caixeiro ia fazer parte da confraria São Martinho...
 
Restaria o "Zé Tatuí", atoleimado e inócuo, mas um bravo trabalhador e mourejador como poucos. Zé Tatuí apreciava os assuntos amorosos e que lhe falassem de mulheres, ainda mesmo quando lhe fosses feias.
 
Aqui hoje fazemos uma parada. Outros hão de vir.
 
Estamos quase certos que a nossa história, mesmo sem o respeitadíssimo H maiúsculo se não pode suportar-lhe o confronto, poderá servir ao menos para despertar saudades, que já é alguma coisa. Se omissão houve, na galeria dos tipos inesquecíveis da popularidade, a culpa vai por conta dos cabelos brancos, que já nos enfeiam a cabeça.
 
Gente velha esquece...
 
Vai nisso o nosso melhor argumento de defesa.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Grandes homens da História do HAOC: Enfermeiro SEBASTIÃO PEREIRA DA SILVA


Veja se o novo Pronto-Socorro do HAOC não merece o nome dele!

Pronto Socorro "Enfermeiro Sebastião Pereira da Silva"


Sebastião Pereira da Silva nasceu em 1922.

Com 16 anos, em 1938, começou a trabalhar no Hospital Augusto de Oliveira Camargo como enfermeiro e só parou  50 anos depois, em 1987, ano de sua morte.


Aprendeu a profissão de enfermeiro na prática, etendendo os pacientes do Hospital Augusto de Oliveira Camargo ao lado do médico Dr. Jácomo Nazário e com as freiras da Imaculada Conceição que trabalhavam Hospital, acumulando experiência para prestar exame no Rio de Janeiro e se diplomar como enfermeiro, em 1952. (na imagem a cima, foto dele no dia da formatura, que ele tinha muito orgulho).


No ano de 1963 o enfermeiro Sebastião completou 25 anos de trabalho dedicados ao HAOC. Veja as imagens seguintes.


Enfermeiras do HAOC e Irmãs da Imaculada Conceição oferem cartão de homenagem ao Jubileu de Prata ao Enfermeiro Sebastião - 25 anos de serviços prestados ao HAOC.


Sebastião ficaria ainda mais 25 anos cuidando dos doentes de nossa Indaiatuba, até que faleceu.
Uma vida inteira como enfermeiro do HAOC.
Foi um dia de festa, onde houve missa e festividades que duraram o dia inteiro no HAOC


Enfermeiro Sebastião e o médico Dr. Jácomo Nazário em imagem rara, no momento em que trabalhavam.   O enfermeiro aprendeu na prática a trabalhar com um dos primeiros médicos que atuou no HAOC.

 
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Esse texto e essas imagens fazem parte de um treinamento dado aos funcionários do HAOC em 2010 sobre a História do Hospital, elaborado por mim, Eliana Belo Silva, com base nos seguintes créditos:
 
Créditos de Informações:

Informações da Família Paula Leite através dos Srs. Roberto e Renato e Dr. Edmir Deberaldini.
Exposição sobre o HAOC - Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, crédito para Silvane Rodrigues Leite Alves.
AVILA, Danilo Ribeiro, “ Uma pequena história do Hospital Augusto de Oliveira Camargo”, texto digitado, não publicado.

Créditos das imagens:

Acervo da Família de Augusto de Oliveira Camargo, cedidas através da Fundação Leonor de Barros Camargo.
Silva & Penna Fotografias (cortesia).


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Crime do Poço - Capítulo 12

Capítulo XII – Premonição e Busca


Foi assim que, na manhã do dia seguinte (1) , quinta-feira, 12 de dezembro, acompanhado pelo amigo Leonardo Simione e pelo sobrinho Antônio Lelário, tomou o trem da estação de Piracicaba e veio para Indaiatuba.

Comumente, muitas pessoas do lugarejo deslocavam-se para a estação a cada trem que chegava. Poucos para esperar intencionalmente alguém, a maioria só para ver o movimento. Mas aquele trem, particularmente, teve um fator de atração maior ainda: o delegado de Piracicaba avisou o delegado de Indaiatuba, o Sr. João Fermiano de Souza sobre a chegada do pai de Domenico no trem das 11:45h, que viria de Piracicaba. Imagine o leitor o que aconteceu quando a população “ouviu falar” que o delegado João Fermiano, o prefeito Major Alfredo e o escrivão Luiz Teixeira de Camargo estavam indo para a Estação!

Após a recepção que poderia ser definida até como “calorosa” se não fosse a triste situação, juntos chegaram até a pensão da viúva Bertolotti onde Modesto ficou, enquanto as autoridades saíram com a promessa de procurar notícias.

A viúva, comovida pelo desespero do homem, pôs-se a chorar e contou a Modesto que tinha perdido o marido e que tinha ficado com cinco filhos pequenos. Disse, depois, que no dia cinco, Domenico tinha alugado um quarto e que tinha saído antes da refeição, não voltando mais.

Teve uma perturbação imprevista quando ouviu aquela senhora dizer “cinco filhos pequenos”. Até àquela impactante frase, não estava pondo atenção ao que ela dizia, introspectivo que estava, em sua angústia. Mantinha uma postura educada, praticamente fingindo-lhe atenção. Mas ali teve um sobressalto, suas palavras que até então eram sussurros ininteligíveis, ecoaram eu sua mente, repletas de significado e suas mãos se molharam de frio suor. Olhou-a então com mais atenção, sentiu a garganta engasgada na dor que a surpresa intensificava mais ainda, e disse:

“-Sim, eu reconheço a senhora! A senhora estava no sonho, com seus cinco filhos. Sei também como é a casa onde está meu filho morto; é aquela!”

E assim dizendo indicou uma casinha que se divisava a pouca distância pela janela.

A mulher, então, respondeu:

“-Mas aquela é a casa do Adão R.!”




O Armazém de Adão R está à direita nesta foto, com "letreiros" de identificação em cima.
Ao fundo, à direita, é possível ver as torres da Matriz Nossa Senhora da Candelária.
É muito provável, pela qualidade da imagem (e outros motivos), que essa foto tenha sido feita no dia da autópsia do corpo de Domênico, uma vez que há uma foto muito parecida (em qualidade de imagem) do corpo sendo autopsiado.


Sem poder compreender aquilo tudo de forma concreta, Modesto sentia apenas sua tristeza aumentar. Não compreendia que o sonho havia cumprido um papel de mensageiro entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos. E embora acreditasse cada vez mais nessa informação, não lhe dava crédito o suficiente para utilizá-la como combustível para seu corpo e mente, cansados e confusos. Afinal, sonho era sonho, não havia provas e a realidade é coisa bem diversa. Renunciar à razão e entregar-se ao sonho significava enfrentar a dor do luto. Talvez por isso, a clara mensagem sobrenatural não se sobrepunha à razão: urgia continuar procurando o filho.

Neste meio tempo a notícia da chegada de Modesto à procura do filho tinha corrido a cidade e todo mundo comentava o fato. Alguém lembrou que naquele dia 5 de dezembro tinha visto Domenico ser convidado pelo Adão a entrar em sua casa para ver alguma mercadoria. Também correu a voz pequena que, justamente naqueles dias, ninguém lembrava ao certo, tinham aterrado o poço no quintal da casa do Adão.

O prefeito Major Alfredo foi até o largo da Cadeia, mas precisamente na esquina das atuais ruas Cerqueira César com 15 de Novembro (onde está o Banco do Brasil) (2) , na casa do amigo Cesare Lisone 45 anos (3), casado, italiano, negociante, e contou que o pai de Domenico De Luca, cujo desaparecimento estava impressionando a cidade toda, achava-se no hotel da Dona Meritá Bortolotti. Cesare foi até o hotel, provavelmente a pedido do próprio prefeito, para oferecer os préstimos que as autoridades não poderiam no momento, uma vez que estavam empenhados na procura do moço.




Armazém de Cesare Lisone, onde atualmente é o Banco do Brasil
Esquina da Rua Cerqueira César com Rua XV de Novembro
(sem data)


O capitão Benedicto de Salles Passos, 32 anos, casado, funcionário público que trabalhava na Câmara e natural de Itatiba, que já estava lá, informado que havia sido pelo escrivão Luiz Teixeira de Camargo, apresentou-o à Modesto De Luca. Terminadas as formalidades das apresentações, Modesto perguntou se Cesare sabia de seu filho ou das pessoas com quem tinha negociado. Cesare disse que, infelizmente, só poderia responder à segunda pergunta, pois era de seu conhecimento que Antônio N. havia vendido uma partilha de cereais para Domenico De Luca.

O senhor Modesto e seus acompanhantes Antônio Lelário e Leonardo saíram então do hotel, com a intenção de ir até a casa de Antônio, conduzidos pelos solícitos Cesare e Benedicto. Subiram calados pela rua Candelária onde se ouvia apenas o surdo ruído dos passos da comitiva no chão de terra batida. Estranhamente e quebrando o silencio, sem nenhum motivo aparente a não ser sua própria intuição, Modesto observou novamente a casa de Adão. Perguntou por três vezes, naquele e em outros dois momentos, por que a casa estava trancada.

O que ou quem lhe falava ao coração?

De onde vinha aquele pressentimento?

Que motivos racionais explicariam aquela insistente e estranha percepção?

Cesare estranhou a insistência da pergunta, mas explicou que ali morava Adão R., que mantinha uma pequena venda no local, que seus pais eram colonos da Fazenda Bicudo e por esse motivo, era muito provável que ele estivesse, por razões que ignorava, visitando-os. Enquanto Cesare dava suas explicações, o capitão Benedicto se lembrou que a venda estava fechada há uns quatro ou cinco dias, fato que só lhe causou estranheza naquele momento. Pensou mas nada disse que aquilo era no mínimo curioso, uma vez que a venda estava sempre movimentada com desocupados jogando bocha ou baralho. Dias mais tarde, em seu depoimento, Cesare Lisone declarou que, só após saber que Adão estava envolvido no crime, é que obtivera uma explicação plausível, embora sobrenatural, da insistência do pai: a “telepatia” (4) .

Viram a esquina e entraram na rua do Comércio (atual rua Sete de Setembro); foram até a rua da Palha (atual Pedro Gonçalves) a qual subiram até a esquina da rua Boa Vista, onde ficava a barbearia de Antônio N. Ao saírem da Boa Vista e já há uns quinze ou vinte passos da barbearia, que também era um ponto de negócios, perceberam que ele, que estava na calçada, passou rapidamente para o lado de dentro assim que avistou o pequeno grupo. Não se retraiu apenas, mas também começou a mastigar o charuto que fumava, não disfarçando a ansiedade. Capitão Benedicto, que muito conhecia Antônio e percebeu também indisfarçável mudança em sua fisionomia, disse:

- “Seu Antônio, este é o pai do moço que consta ter desaparecido daqui no dia cinco. E ele soube que o moço esteve na sua casa a negócios com o senhor, então ele vem pedir-lhe informações sobre o paradeiro do mesmo.”

Estremecido e visivelmente pálido ele respondeu que


"... já sabia que o pai do mocinho [referindo-se a Domenico] o estava procurando, mas que ele não sabia onde estava... e que o mocinho havia estado ligeiramente [ali] no dia em que sumiu, não tendo entretanto feito nenhum negócio com ele... e que tinha prometido de voltar lá, mas não... [voltou].”


Respondera movimentando os lábios roxos, pálido, com as olheiras de costume... Sua feição se modificava a cada pausa e a voz tremia mais e mais... Tentou acender o charuto por três vezes durante a resposta, sem êxito, prolongando sua fala por um tempo longo e comprometedor. Dias depois, em seu depoimento , o capitão Benedicto (5) disse que sua voz ...”revelava sempre grande perturbação de espírito e desconfiança...com olhares muito desconfiados para com Modesto... [a ponto de ele achar que tivesse, para com ele]... qualquer causo ou agressão.”

Modesto agradeceu e estendeu-lhe a mão.

Antônio retribuiu, apertando sua mão com a mesma frieza e força com que havia dado a paulada em seu filho.

Virou as costas e não acompanhou os visitantes até a porta do negócio. A poucos passos dali, até os companheiros de Modesto, Lelário e Leonardo, que não o conheciam, comentaram a indisfarçável alteração.




Família de Domênico de Luca, em imagem doada po Márcia de Luca para o livro "O Crime do Poço"
Sr. Modesto está do lado do filho Domênico que o quinto menino, de gravatinha borboleta.

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(1) Parte das informações deste capítulo são advindas da Tribuna de Indaiá de 1o de janeiro de 1961.

(2) PENTEADO, 1999. p.13


(3) O depoimento de Cesare Lisone tem início na p.153 do 1º.vol. dos autos do processo transcrito pela FPM.

(4) "Telepatia" foi a exata palavra usada por Cesare Lisone em 1907, expressão que o escrivão Luis Teixeira de Camargo fez questão  de destacar como sendo "palavra do depoente"

(5) O depoimento do Capitão Benedicto de Salles Passos tem início da página 157 do primeiro volume dos autos do processo.

domingo, 23 de setembro de 2012

O Crime do Poço - Capítulo 11

Foi assim que, no dia seguinte, terça-feira dia 10 de dezembro (1) , o conhecido Leonardo Simione embarcou para Itu com a recomendação e o dinheiro suficiente para telegrafar toda e qualquer novidade das estações onde parasse, “uma à uma”, isto até Piracicaba. Chegando a Indaiatuba, apressou-se a comunicar que Domenico não estava ali, e assim por diante, até chegar a Piracicaba.

Modesto lia, com o coração apertado, cada notícia que chegava, mantendo-se praticamente o dia todo indo e vindo com as mensagens na mão a fim de manter Dona Vincenza informada. Pode-se imaginar qual foi a intensidade do choque quando, naquela início de noite, recebeu o último telegrama de Leonardo, que dizia:


Modesto,
Em Piracicaba, ninguém tem notícias de Domenico.
Ele não se encontra aqui.
Leonardo Simione

Com aquelas poucas letras, terminava a ilusão...

A ilusão de que o filho, ocupado demais com os negócios, tivesse deixado de escrever.

As imagens do sonho voltavam mais forte na sua memória, ilustrando o coração atormentado, alimentando a aflita sensação de tristeza.

Uma casa em Indaiatuba...

Não agüentava mais tamanho tormento: pegaria o primeiro trem que saísse para Piracicaba decidido a encontrar o filho, fosse como fosse.

E assim foi que, no primeiro trem que saiu da estação do Brás, rumou para Piracicaba Modesto De Luca, naquela quarta-feira, 11 de dezembro de 1907.






 
Estação do Brás, sem data.
Foto cedida por Wanderley Duck para o site www.estacoesferroviarias.com.br


As poucas horas que o trem demorou a chegar a Piracicaba, pareceram um século ao pobre Modesto, cheio de tristes presságios. Na estação de ferroviária, encontrou a esperá-lo o Leonardo Simione e juntos foram ao Hotel Bela Vista, onde Domenico deveria estar hospedado. A dona do hotel não teve dúvida em contar-lhe que a última vez que tinha visto o menino, fora no dia de sua chegada de São Paulo e que de lá, depois de lida uma carta procedente de Indaiatuba, o filho tinha seguido para aquela cidade, a fim de acertar um negócio.

Ao ouvir “...uma carta procedente de Indaiatuba...” seu coração gelou. Teve a impressão de que sua consciência o abandonara, “apagando” todas as suas sensações e aniquilando sua capacidade de pensamento lógico. Retornou daquele estado de temporária ausência com a freqüência cardíaca alterada e com a sensação de perigo iminente.

Lembrou dos detalhes daquela maldita casa descrita por Vincenza, que falava do sonho como se estivesse de fronte a uma gravura concreta e palpável. Sinais transformavam-se em certezas. Sentia náuseas.

Uma casa em Indaiatuba...

Mas mesmo assim a certeza não estava totalmente confirmada, pois eu seu coração de pai havia ainda uma esperança... Ele tinha que confirmar o que parecia óbvio... Talvez tivesse ainda alguma possibilidade. A vida concreta descortinava a perda, a incerteza; mas sua vontade, movida pelo amor de pai, negava o que a realidade insistia em mostrar... Afinal... Havia ainda aquele seu amigo, o Atílio Colli...

Ele havia escrito que o filho estava bem em Piracicaba.

Devia ir até a casa dele, porque talvez o filho lá se encontrasse e seu transtorno teria fim. Mas foi inutilmente; ali também o filho não estava, como também o Colli, que naqueles dias tinha viajado para São Paulo e a mulher dele nada sabia.

Só restava ir à polícia e denunciar o desaparecimento. O delegado de Piracicaba o recebeu com gentileza e prometeu que tudo faria para ajudá-lo; disse também que providenciaria a prisão de Colli, o qual tinha lhe remetido uma falsa notícia. Também se comunicaria com os delegados das cidades vizinhas a fim de procurar o jovem desaparecido.

Nessa altura, Modesto estava exaurido. Sua esperança, já tão tênue, esvaia-se a cada minuto, por mais que ele tentasse agarrá-la. Mas não tinha mais argumentos, nada mais sustentava a tendência de seu espírito para considerar como provável a realização do que mais ele desejava: encontrar o filho bem.

A casa em Indaiatuba...

As informações relativas ao pesadelo de Vincenza insistiam em atormentá-lo. De algum lugar escondido de sua mente vinha a certeza de que tudo aquilo continha uma alta dose de realidade. A certeza de que tudo era uma premonição crescia em seu coração. Ele não podia mais conter uma a certeza de que encontraria o filho morto na cidade de Indaiatuba, assim como revelara aquele sonho terrível.

Enquanto isso em Indaiatuba, os amigos chegavam de São Paulo com suas compras. Em seu depoimento, Giovane Brentam, 40 anos, italiano, negociante, disse que fora naquela tarde comprar açúcar e, no momento em que o sino da matriz Nossa Senhora da Candelária marcava seis horas da tarde, passou na barbearia de Antônio, quanto esse lhe contou com ostentação o quanto ele havia gasto em São Paulo, “... e Adão também”. Disse também, em juízo , que conhecia Antônio e Adão há muito tempo, jogava cartas com eles, mas como só perdia dinheiro, estava tentando deixar o hábito. Já de Eugênio, declarou não ser amigo, pois "...ele é vagabundo e não paga as contas.” E que naquela mesma noite, por volta das sete horas iniciaram-se várias rodadas de carteado na venda de Adão, aberta exclusivamente para eles. Estavam lá: Adão, Antônio N., Eugênio C., Luiz Guimarães, Vicente Gaudini e ele, Giovane. Que os últimos perderam muito dinheiro, pois se deixaram seduzir pelas altas apostas chamadas pelos três primeiros, que estavam com muito dinheiro, quantia que, mais tarde, veio saber que havia sido retirada do menino Domenico em abominável latrocínio.

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[1]  As informações deste capítulo são advindas da Tribuna de Indaiá de 1º de janeiro de 1961 e dos autos do processo.

sábado, 8 de setembro de 2012

Tipos Populares de Indaiatuba Antiga III (continuação)

texto de Ejotaele (continuação desse daqui)

 
Seguindo o nosso roteiro pelos fatos da história de Indaiatuba, lembrando-lhe as figuras populares, algumas das quais se tornaram quase lendárias, vamos encontrar o quase lendário "Lourenço sem Chapéu", assim chamado por não fazer uso de chapéu.
 
Naquele tempo, um homem que não fizesse uso do chapéu, importava um verdadeiro anacronismo. Lourenço Sem Chapéu! Quem não se lembra, com saudades, dessa figura benquista de todos, principalmente aqueles que já dobraram o cabo da boa esperança! Alegre e prazenteiro, com seu sorriso rugoso, "Lourenço Sem Chapéu" era o ídolo da petizada daquelas priscas eras, mesmo porque os mais sagazes sabiam explorar-lhe os sentimentos para dele receberem alguns vintenzinhos, de que era pródigo em distribuir.
 
Lourenço sempre trazia consigo algum dinheiro, produto de algumas reservinhas que a sua chácara lhe propiciava, chácara que mais tarde tomou denominação de "Chácara Aurora".
 
Quando o velho Lourenço Sem Chapéu, com suas sandálias monacais e suas patriarcais barbichas morreu, Indaiatuba inteira cobriu-se de comovedor pesar. O cemitério de pedra guarda-lhe os restos mortais, Lá se encontra seu túmulo no mármore eterno, o tributo da estima popular.
 
Por este tempo que medeia de 1908 a 1916, coevo da mesma popularidade, existiu uma pobre criatura estigmatizada por aleijões físicos, alvo de zombarias e divertimento de moleques e até mesmo de adultos que, ao mesmo tempo compelidos por amor à compensação, se condoíam da sua sorte. Esta criatura dói o Cipriano.
 
A história do infeliz Cipriano é como a de todos os seres marginais: não se sabe de onde veio. Cipriano era dado a prodigiosas consumações de cachaça, pois não havia ninguém que lhe negasse um martelo de boa ou má pinga, até mesmo quando ele já se encontrasse chumbado. Era comum ouví-lo cantarolar cantigas sem nexo e falar sobre cinema que ele desconhecia, "celema", como ele dizia.
 
Por incrível que pareça, Cipriano sucumbiu em consequencia da voracidade dos "bichos de pé" que lhe consumiam mãos e pés. Mãos piedosas, de quando em vez, haviam por bem  jogá-lo em salutar banho que exigia, no entanto, esforço heróico, tal a proliferação de tais bichinhos. Estes, porém, resistiam ao ataque benéfico do banho higiênico e porfiavam em permanecer nos deformados pés do Cipriano.
 
Nos seus últimos anos de vida, o infeliz Cipriano foi internado na Santa Casa de Misericórdia de Itu, ondem por fim, veio a falecer.
 
 Outra figura curiosa que existiu na mesma época, foi uma velhinha magriça e hirsuta de fisionomia agreste de hábito que identificavam bem o tipo das mulheres de condições humildes de então: chale, chinelos, olhar sisudo e enfiado, Não se sabe porque cargas  d´ agua e essa mulher veio a ser uma das figuras capitulares da vida citadina. Constituía, em verdade, diversão de mau gosto de muita gente. Era a coqueluche da meninada chamá-la aos berros: Nhá Rita Rabi, quando não era um assobio malicioso que corresponde às sílabas do seu nome.
 
Nhá Rita Rabi não tolerava o nome com que fora batizada e muito menos o atrevido e clássico assobio. A resposta de Nhá Rita Rabi ao assobio era um palavrão desse tamanho. Era então que ela fazia uso e abuso de vocábulos, os mais licenciosos. Muitas vezes, a resposta aos motejos que lhe dirigiam era uma inesperada pedrada que Nhá Rita Rabi arremessava sem cerimônia, pouco se lhe dando o destino da pedra fosse uma vidraça.
 
(continua)


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Nos trilhos da História

A reportagem a seguir foi publicada na revista NOSSA IMAGEM
Ano 03 - edição 09
 
É um belíssimo texto sobre nossa Estação Ferroviária
 
Para ler, clique na imagem para ampliá-la.
 



A redação da revista quer saber que é o maquinista da imagem abaixo.
Você sabe?
 


 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Fatos e Coisas de Indaiatuba Antiga - Seus Tipos Populares (II)

texto de Ejotaele (continuação)
 
 
(Este texto começa aqui, em post anterior)
 
Assinalaríamos ainda outros tipos andrajosos de rua, conhecidos do povo, como foram "Jaburu" e "Maria Louca", esta última, tinha o vezo "lenhar" a qualquer hora, até mesmo à noite. Será interessante esclarecer aqui que "lenhar", palavra em voga naquele tempo, significava procurar gravetos no mato ou nas capoeiras.
 
Tipo do auspicioso, do madraço e do capiango, era o Bentão. O povo conhecia-lhe as artimanhas, mas assim mesmo as propinas lhe chegava às mãos. O certo é que Bentão servia-se de umas mulatas quando saía à rua pedir esmolas, mas quando recolhia-se aos seus penates, mandava às favas os respeitáveis bastões de coxo e andava como qualquer mortal.
 
Houve um "Antônio Boi", "Antônio Veado", este, pelo fato de residir nas proximidades do cemitério, era tido como assombração. As crianças temiam-no.
 
Digno de nota, foi Delfino, o preto Delfino, que residia ao longo do caminho do Chafariz. ´Haverá quem não se lembre do seu linguajar curioso e pitoresco?: "Mim é arara num é Araraquara" ou "Pouca miséria miacumpanha", era o que Delfino frequentemente cantarolava. Dizia-se que ele havia sido escravo e escravo de bom preço, por ser dotado de finas canelas. Era pouco afeito ao "batente"; vivia, talvez, por isso, sempre bem humorado...
 
O Vieira era um cariboca esguio e forte, caboco enxuto, resistente ao peso dos anos e às intempéries. Marejou por longos anos, ora no "desvio", ora no trabalho, não raro mal remunerado, em razão da própria maneira de viver. O seu palavreado está latente ainda na lembrança popular: "aieres, pitares, fumares".
 
Nunca pudemos atinar a razão porque o Antônio Camargo, figura popularíssima e amiga das crianças, por longos anos foi o "bilheteiro de Indaiatuba". De tradicional família paulistana, não poderia conceber a idéia de que Antônio Camargo exercesse mister incompatível com os brasões da família. "Vendendo a sorte", sem, contudo, tê-la vendido à ninguém, talvez ganharia a sua sorte grande pois foi ter à França o nosso Camargo, onde permaneceu uma dezena de anos lá gozando de uma existência sem preocupações. Não há morador de Indaiatuba dessa época que não tenha recebido do Camargo um cartão da luxuriante Paris do começo do século!
 
Figura benquista e conhecida de todos, que deixou de existir há alguns anos já, foi a preta Nhá Benta, que batia o pé pelas ruas da cidade à vender frutas e quejandas. Nhá Benta possuía verdadeira ojeriza às armas de fogo. Sabiam-na com esse complexo e bastava um simples gesto de sacar uma arma, para fazer com que a boa Nhá Benta "azulasse". Um dos traços marcantes de sua vida e isto lhe ia em conta de qualidade admirável, já que hoje em dia é missão difícil - senão impossível, era o dispor de seus préstimos aos jovens nos seus transportes amorosos. E dizer-se que Nhá Benta "arrumava" casamentos"!
 
 

 
 


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Crime do Poço - Capítulo 10

Capitulo X - - Diversão e Pesadelo

O relógio da matriz Nossa Senhora da Candelária marcava dez horas da noite do domingo , 8 de dezembro de 1907 (1). O toque de recolher já havia ordenado para que as pessoas se recolhessem. Obedecendo, não testemunharam que na rua mal iluminada pelos lampiões, alguns colegas que, convidados por Adão, Eugênio e Antônio, foram à surdina, jogar mais baralho na venda de Adão, claro, com as portas fechadas.

Pascoal Matteo, que estava junto com Vicente Gaudini nesta contravenção, contou em juízo que jogaram até as três horas da madrugada o jogo-do-ponto, cuja dinâmica é “...muito violenta, porque o jogador pode perder muito em muito pouco tempo”. Notou com estranheza que Adão e Eugênio aceitavam todas as apostas chamadas; inclusive Eugênio aceitava “todas as paradas propostas, até com cartas ruins”.

A atitude de ostentação de Eugênio também foi percebida pelo dono da sapataria em que ele trabalhava, Horácio Otranto. Quando depôs, Horácio disse que, naqueles dias, Eugênio se gabava incansavelmente das quantias que apostava, narrando detalhes das partidas, inclusive vangloriando que estava aceitando qualquer “parada proposta pelos outros jogadores.” Notou ainda que, sem nenhuma discrição ele “puxava do bolso notas de cinco e dez mil réis.”

Já em São Paulo, a inquietação dos pais aumentava incontrolavelmente. A intensa angustia fazia com que as horas passassem morosamente. Com aquela sensação de padecimento e vazio a partir-lhe o coração, Dona Vincenza foi deitar naquela noite com a esperança de que o dia seguinte traria alguma notícia.

O sono custava a chegar, a imagem do filho não lhe saia da frente e tristes pensamentos a torturavam. Mexia-se e remexia-se na cama, outrora tão confortável, sem encontrar alívio. Até que, enfim, conseguiu fechar os olhos e, pelo cansaço das noites anteriores passadas em claro, adormeceu e sonhou (2).


Lá estava o Sr. Modesto num Banco a pedir a um funcionário notícias de seu filho e o interpelado perguntou:

- Mas como se chama ele?

Ao que Modesto respondeu: Domenico De Luca.

O funcionário abriu um papel e o pai conseguiu ler, antes que o outro falasse, uma frase desesperadora: “Domenico De Luca morreu em Indaiatuba.”

Saiu gritando chamando pelo filho, correu para casa a fim de dar a triste notícia a sua mulher. Não tinha mais forças para andar e o caminho parecia-lhe tão comprido. Enfim chegou e chorando disse à sua mulher: depressa, temos que partir, nosso filho está morto, temos que ir buscá-lo.

Num instante encontravam-se os dois na estação da Luz e já estavam viajando para Jundiaí. O trem corria, corria numa planície sem fim: não se via casas, nem gado a pastar nos campos, apenas um céu cinzento a cobrir tudo com uma espessa névoa cheia de tristeza e de dor, até que apareceu um condutor para conferir as passagens.

Modesto entregou-lhe a deles e com espanto ouviu o condutor dizer:

- Mas este trem vai para São Paulo!

Modesto desesperado, vencendo a resistência do condutor e da mulher que queriam segurá-lo, pulou pela janela e se pôs a correr alucinado pelos pastos sem fim, até que de repente lhe apareceu uma mulher com cinco crianças em volta dela. Então parou, e a mulher disse:

- Não chore, bom homem, tenha coragem.

Ao que ele perguntou:

- Por que não devo chorar, se não consigo encontrar meu filho?

E a mulher:

- Venha comigo, eu o levarei. Seu filho morreu em Indaiatuba é lá se encontra ainda.

O pobre pai, agora já sem forças, a acompanhava. Em pouco tempo chegaram a Indaiatuba e Modesto encontrou sua mulher. Juntos seguiram para uma casa onde estavam velando um defunto. Mal entraram num quarto e já reconheceram no morto o seu próprio filho!


Foi tão grande o choque da imagem do filho morto que Dona Vincenza acordou. Estava banhada de suor e custou a perceber que tudo não tinha passado de um sonho, de um horrível pesadelo. Narrou os detalhes para o Sr. Modesto. Descreveu a casa onde estava o filho morto, deitado em lençóis brancos com um fio de sangue escorrendo na face.

Uma casa em Indaiatuba...

Uma casa em Indaiatuba...

O Sr. Modesto tentou transmitir segurança, paciência e calma. Mas era muito difícil tentar oferecer o que não possuía, o que com todo custo tentava arrancar do fundo da sua alma, mas não encontrava.

O sol estava clareando e lá começou outro dia, de tristeza e ansiosa espera. Aquela segunda feira, dia 9 de dezembro de 1907 também seria um dia nada fácil.

Lá pelas dez da manhã passou o carteiro e mais uma vez, sem carta nenhuma. Modesto não podia agüentar nem mais um minuto e resolveu findar a espera. Tomaria o próximo trem e iria para Piracicaba.

Chegando à estação lembrou-se do telegrama remetido para o amigo Atílio Colli, do qual não tinha ainda recebido resposta. Perguntou ao funcionário do telégrafo se tinha alguma notícia. Soube então que justamente naquela hora, estava chegando a resposta telegráfica do conhecido, assim redigida:



Seu filho bom está aqui.
Atílio Colli.


Até que enfim! Suspirou o pobre pai, aliviado. Voltou às pressas para casa a fim de levar a boa notícia para toda a família. Depois de cinco dias de aflição e preocupações, finalmente poderiam ficar mais sossegados!

O rápido alívio logo se esvaiu.

Afinal, era ainda de se estranhar que o filho não escrevesse, por que se daria isso?

Será que preferia narrar pessoalmente sobre os bons negócios que fizera? Jovens são assim mesmo...

Talvez o bambino quisesse simplesmente mostrar competência e provar independência...

Com esses pensamentos, o pai tentava distanciar sua inquietude, que parecia querer dizer algo em seu ouvido, dando energia para as descompassadas batidas do seu coração, que insistia em permanecer aflito. Então ele olhava o bilhete para buscar alívio. Em vão. Olhava para Dona Vincenza e percebia em seus movimentos o mesmo pensamento angustiante. A lembrança do sonho parecia que tinha vida própria e invadia sua mente sem autorização.

Uma casa em Indaiatuba...

Felizmente no dia seguinte, um tal de Leonardo Simione, patrício e conhecido da família, deveria embarcar para Itu. Modesto aproveitou a ocasião para pedir-lhe que prosseguisse até Piracicaba, a procura de melhores notícias do seu filho. De fato estava mais tranqüilo - mas a lembrança daquele sonho tão cheio de detalhes não deixava a família em uma paz realmente verdadeira. Queria certificar-se melhor e livrar-se de uma vez por todas daquele tormento.

Enquanto isso, Antônio, Adão e outro colega, o Sr. Nicola Ferrari (3), embarcaram no trem de onze horas e cinqüenta minutos à caminho de São Paulo, onde se hospedaram no Hotel Magna Mini, na rua Libero Badaró. Passearam e fizeram compras. Passaram pela “Casa Gouveia Bacellar”, onde Antônio aconselhou Adão a comprar gêneros para abastecer sua venda “tudo à vista”, que seria mais barato. Gêneros que nem chegaram a ser comercializados por Adão, que jamais desconfiaria que seu destino no cárcere estava muito próximo. Antônio comprou trigo, queijos, doze quilos de salame, óleo para passar no cabelo e uma sanfona.


Rua Libero Badaró – Início do século XX
Foto do acervo da Prefeitura Municipal de São Paulo - Arquivo de Negativos/DPH


Tocavam a vida, focados apenas na rotina...

Rotina essa quebrada repentinamente pela ameaça que Adão recebeu na viagem de volta. Em seu depoimento, contou que, no trem, Antônio insistiu para que nunca...“nunca nada falasse sobre Domenico De Luca quando qualquer pessoa pedisse qualquer informação, pois se descobrissem o crime ele seria o mais [SIC!] criminoso, uma vez que o cadáver estava na sua casa...


.....oooooOooooo.....
    (1) As informações deste capítulo são advindas da Tribuna de Indaiá e dos autos do processo.

(2) Todos os relatos orais de testemunhas (vide último capítulo) registram que foi a mãe quem teve o sonho com o filho morto, mas que para preservá-la da busca e da exposição, o pai assumiu a premonição diante das autoridades de Indaiatuba no momento da formalização da queixa. Esta informação também foi confirmada pelos descendentes, Márcia De Luca e Paschoal De Luca. Por priorizar essas fontes e por ter ouvido inúmeros parentes que viveram na época do crime na minha família, optei por essa versão, diferente do relato registrado em 1960 na Tribuna de Indaiá, que registrou o pai como responsável pelo sonho.

(3) Segundo Antonio Reginaldo Geiss, presidente da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, o Sr. Nicola Ferrari criou os filhos de Antônio N. enquanto ele ficou preso. Esatabeleceu uma casa de negócios na atual esquina das ruas Cerqueira César e Pedro de Toledo, tirando dali o sustento para toda a família (informação verbal).

domingo, 5 de agosto de 2012

História de Indaiatuba no Ambientação da Toyota

No dia de ontem, sábado, dia 04 de agosto, Indaiatuba foi novamente privilegiada por sediar o projeto Ambientação, executado pela Fundação Toyota do Brasil.

O projeto têm como foco a Educação Ambiental visando preservar o ambiente por meio da redução do consumo de recursos naturais em escolas e comunidades - e é uma das ações de Responsabilidade Social da Toyota.

Entre várias atividades educativas e de lazer, foi muito gratificante saber que a História de Indaiatuba foi cuidadosamente inserida na programação, através do projeto "Histórias dos Indaiás para Ouvidos Pequenos".

Na programação, foram inseridos temas da história de nossa cidade, contadas por Marina Costa e Nau Martins com uma trilha musical adequada e cuidadosamente escolhida como "cenário acústico".

Fantástico.

Uma empresa que gera emprego e renda, comprometida com ações de responsabilidade social, que viabilizou um projeto educativo usando (também) nossa História como eixo temático.

Ganham todos: a empresa, que projeta seu nome e seus projetos positivamente, os artistas que participam, pois vinculam seus projetos à tarefas educativas relacionadas à gestão ambiental; e o povo, que recebeu gratuitamente um evento com uma infraestrutura fantástica, de forma gratuita.

Amei.

 Essa é a Indaiatuba que queremos, que merecemos e que podemos!



quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Crime do Poço - Capítulo 9

Capítulo IX - Aflição e Desdém



Amanhecia a sexta-feira, dia 6 de dezembro de 1907 (1) . Dona Meritá arrumou as coisas de Domenico e dos outros hóspedes, estranhando a ausência do moço.

Por que ele não haveria de ter voltado? Nem ao menos para buscar o guarda-chuva?

Na noite anterior, mandara que suas filhas procurassem o jovem hóspede pela cidade, busca fácil, considerando o tamanho da cidadezinha. Mas as meninas retornaram para fugir da chuva que caia desde o dia anterior, ora indo, ora vindo. Não acharam, nada viram sobre ele. Andaram por todo o Largo da Matriz, por todo o Largo da Cadeia, mas ele não estava em lugar algum.




Largo da Matriz – A Igreja Nossa Senhora da Candelária sem as torres.
Foto do acervo do Arquivo Público Municipal de Indaiatuba – Fundação Pró-Memória de Indaiatuba

O carpinteiro Hugo também estivera ali na noite anterior, ela perguntou também para ele sobre o paradeiro do jovem italiano, mas aquele também nada sabia. Concentrada em seus afazeres, esqueceu durante um tempo o assunto e foi cuidar da rotina, cuidando dos cinco filhos e da pequena hospedaria. Urgia iniciar os preparativos para o almoço.

O relógio da matriz Nossa Senhora da Candelária batia três horas da tarde naquela sexta-feira, quando Antônio foi até a venda de Adão, que funcionava normalmente, como se aquelas paredes não tivessem sido testemunhas do ato covarde que transcorrera no dia anterior. Assim como eles, todos os outros moradores da cidadezinha levavam a vidinha de sempre, mal supondo o abalo que levariam, sem desconfiar da lamentável cena que ali se desenrolara. Os dois foram até o fundo do quintal. Antônio mostrou-se receoso, dizendo que a quantidade de terra jogada por eles no final da tarde anterior havia sido pouca.

Adão ficou muito agitado com o comentário, disse que Pedro Sargentelli se recusara a continuar o serviço. E como se cobrir totalmente o poço realmente fosse uma forma eficaz de encobrir o frio assassinato, logo procurou outra pessoa, desta vez o preto Delfino, figura conhecida na cidadezinha para continuar o aterramento; “ele era discreto, quase não falava, meio retardado e muito forte (2).” Seria a pessoa ideal.

Ao depor (3) , Delfino de Moraes, 40 anos, disse que, ao perguntar por que haveria de entupir um poço até então descoberto, o contratante respondeu: “tenho irmãos pequenos que podem cair ali.”

Mario Dotta, que escreveu “A Tragédia da Rua Candelária”, narrou o envolvimento do preto Delfino no episódio:
“... exigem eles esforço excessivo do negro Delfino, que trabalha quase sem descanso, num esforço extenuante.... Delfino não agüenta o ritmo do serviço e quer desistir. É estimulado de novo com novas promessas convincentes, mas tem de terminar na mesma noite o serviço. O peão bronco começa a assustar-se. Sem imaginar os motivos, a natureza rude do peão adverte que há algo de inconfessável na tarefa aloucada. A insistência é demais ...”

Por fim, Delfino entupiu o poço com tudo o que havia de terra no quintal, deixando o terreiro bem limpinho. E como ainda só havia aterrado o poço até um pouco mais da metade, Adão deu um pano para que fosse esticado na boca e preso nas bordas, recoberto e disfarçado em seguida com mais um pouco de terra.

A mãe de Adão, Rosália R., (4) de 42 anos, italiana, casada, era colona da Fazenda da Dona Escolástica mas sempre vinha até a venda do filho para visitá-lo e ajudar na arrumação e limpeza .




Casarão do Pau Preto na fazenda de dona Escolástica, onde a mãe de Adão era colona
Foto do acervo do Arquivo Público Municipal de Indaiatuba – Fundação Pró-Memória de Indaiatuba


Com essa intenção, chegou e entrou no quintal no momento em que Delfino e Adão raspavam o terreiro, jogando tudo o que podiam dentro da cisterna. Começaram a conversar, Adão dizendo que o poço estava sendo entupido para que o seu cavalo, que seria colocado ali, não caísse no buraco, como já havia ocorrido em outra ocasião, com um conhecido dele. Naquela altura, a mãe, totalmente isenta de qualquer desconfiança, mudou de assunto e começou a aconselhá-lo a não se casar, como ele estava desejando. Entre uma frase e outra sobre o namoro que ele matinha com uma moça, que também morava na colônia da Dona Escolástica (5) , Adão mudou a versão da história distraidamente, e disse que estava enchendo o poço a conselho de Antônio N.

Dona Sylvia Teixeira de Camargo Sannazzaro, filha do então escrivão Luiz Teixeira de Camargo, conta, em seu livro “O Tempo e a Gente”, que seu pai, tendo tomado conhecimento do desaparecimento do moço pela aflição de Dona Meritá, dirigiu-se até a venda de Adão, com a desculpa de olhar o campo de bocha que havia no quintal.


“Ao entrar na venda notou certo nervosismo no Adão R., que respondia às perguntas com evasivas... referiu-se ao campo de bocha, ao que ele repentinamente disse ter acabado com ele porque atrapalhava os negócios. Meu pai, porém, foi entrando para o quintal e ele na frente se afastando, na tentativa de impedir a chegado ao quintal, mas quando meu pai lá chegou, assustou-se com o que viu. Não existia mais uma árvore sequer e o chão estava raspado com uma enxada! Uma limpeza completa e perfeita. Não mais existia o campo de bocha. Havia desaparecido. Curioso, meu pai perguntou-lhe por que tudo aquilo? Ao que ele respondeu: “Para entupir o poço velho que nada mais valia, por estar seco e causar preocupação, estando aberto sem necessidade ”.(6)


Sábado, 7 de dezembro de 1907. Havia três dias que seu filho Domenico tinha saído de São Paulo para Piracicaba. Por que não enviara nenhuma carta? Por que não mandava notícias conforme tinham combinado? Era o início de um fim-de-semana cheio de angústia para os pais que, naturalmente, esperavam notícias do filho no máximo até o dia seis. Mas arrastaram-se as horas desses longos dias e o carteiro não trazia carta nenhuma.

Sr. Modesto e Dona Vincenza estavam preocupados. De início não demonstravam isso um para outro, cada um com a intenção de acalmar o parceiro. Mas a contenção tinha limite. Em dada hora o senhor Modesto De Luca foi até a estação da Sorocabana e passou um telegrama para o filho no Hotel Bela Vista, em Piracicaba. Mas não obteve resposta. Assim a preocupação aumentou. O casal entreolhava-se, buscando na feição do outro uma resposta inexistente, uma calma ausente.

Modesto tinha dado ordem ao filho de escrever todos os dias acerca dos negócios que andasse fazendo. Mesmo que uma primeira carta tivesse sido extraviada, a segunda, escrita no dia seguinte, deveria já ter chegado!

Domenico era um moço obediente, não teria deixado de escrever por motivo nenhum, portanto deveria ter lhe acontecido alguma coisa. Estaria ele doente em alguma cidade desconhecida? Teria sofrido algum acidente?

Com estes pensamentos, Modesto foi outra vez na estação da Sorocabana e passou em telegrama para um conhecido seu em Piracicaba, o senhor Atílio Colli, pedindo-lhe notícias do filho.

Neste mesmo sábado, em Indaiatuba, o pai de Adão, Sr. Thomaz R., (7) 48 anos, perguntou ao filho por que tinha mandando entupir o poço do fundo do quintal, e obteve a seguinte resposta: “Para não cair nenhum animal.” Quando foi interrogado , no dia 15 de dezembro, o pai limitou-se a declarar que não sabia de onde o filho conseguira o dinheiro que tinha e que sabia que era amigo de Antônio N. e de Eugênio C., com quem sempre jogava cartas. Nada mais acrescentou como testemunha, nem mesmo a favor do filho.

Mais tarde, Dona Meritá Bertolotti encontrou Adão na Rua Candelária e perguntou se havia visto Domenico, contando-lhe o estranho fato de ele não ter retornado para a pensão. Dias mais tarde, contando esse fato em depoimento, Dona Meritá disse que não notara nenhuma estranha reação em Adão quando ele respondera que não, que... “não sabia dele.”

O carpinteiro Hugo também perguntou se ele sabia do moço, uma vez que havia ouvido de Dona Meritá comentários sobre o singular sumiço, ao que ele respondeu.

“- Acho que ele foi até o Mato Dentro procurar milho para comprar e ainda não votou...”

Com rumores da procura sem sucesso de Dona Meritá, o assunto começou a ser ventilado no lugarejo, ainda que discretamente. Onde estaria o jovem comerciante italiano, que deixara suas coisas no hotel e fora visto pela última vez, com Adão?

Ao cair dessa tarde, Adão, Eugênio e Antônio reúnem-se descaradamente na venda, sem nada falar, apenas para continuar a rotina que julgavam jamais seria abalada: montaram a mesa do carteado com os colegas Ernesto Laurenciano e Ernesto Campi e ali passaram descompromissado tempo.

Estavam temerosos sim, mas o dinheiro que portavam perturbava-os em demasia, e por isso não disfarçavam a opulência. Não conseguiam dissimular a nova situação e jogavam alto demais para os outros companheiros, que começaram a ter uma suspeita indefinida, que foi tomando força na medida em que se passaram os dias.

À noite, vários patrícios foram dançar numa festa na colônia da Fazenda Bicudo. Pascoal Matteo (8), 38 anos, solteiro, italiano e sapateiro, contou em depoimento que, nessa festa, alguns colegas se reuniram em volta de uma mesa para jogar, entre eles, Adão, Antônio N. e seu cunhado Nicola, sendo que o jogo se prolongou até “...as quatro horas da manhã.” Pascoal também presenciou naquela madrugada de domingo o momento em que Nicola, Adão e Antônio N. combinaram de ir para São Paulo no dia seguinte, segunda-feira.

Em São Paulo, no crescimento efervescente do bairro do Brás, a aflição dos pais aumentava.

.....oooooOooooo.....
 
 
(1) As informações desse capítulo foram retiradas dos Autos do Processo.
(2) DOTTA, 1985. p.22.
(3) O depoimento de Delfino de Moraes tem início na página 34 do primeiro volume dos Autos do Processo.
(4) O depoimento de Rosália R. tem início na p.124 do 1º.vol. dos autos do processo transcrito pela FPM.
(5)  Na época do crime, Escolástica Angelina da Fonseca era dona da Fazenda Pau Preto, viúva de Joaquim Emigdio de Campos Bicudo, com quem teve 8 filhos. Quando Joaquim faleceu com apenas 48 anos Escolástica assumiu os negócios, entre eles a primeira máquina de beneficiar café, instalada na tulha do Casarão Pau Preto.
(6) SANNAZZARO, 1997, p.227
(7) O depoimento de Thomaz R. tem início na p.31 do 1º.vol.  dos autos do processo.
(8) O depoimento de Pascoal Matteo tem início na p.173 do 1º. vol. dos autos do processo.
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