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quarta-feira, 23 de maio de 2018

CIGANOS


"Ciganos" - obra de George Morland - óleo sobre tela - 36 x 47 cm - 1800 - 
(The Hermitage (St. Petersburg, Russia)


"Cigana com filho" - obra de Amedeo Modigliani óleo sobre tela - 116 x 73 cm - 1918 - 
(Galeria Nacional de Art, Washington, EUA)





"A Cigana Adormecida" - obra de Henri Rousseauóleo sobre tela - 129,5 x 200,7 cm - 1897 
(Museu de Arte Moderna, Nova York, EUA)



A historiografia considera – pelo menos essa é, até agora - a fonte mais antiga encontrada - que os primeiros ciganos chegaram no Brasil em 1574 quando João Torres, sua mulher e filhos foram degredados para o nosso país.[1] 

Desde então, as relações entre esses ciganos e os demais membros da sociedade, por terem se diferenciado bastante, no tempo e no espaço, não foram tranquilas[2] e a presença deles, substancialmente até o fim do século XIX e início do século XX, incomodava por demais as autoridades, como aconteceu na Indaiatuba do Major Alfredo Camargo da Fonseca, do Tenente José Tacnlér-Tancredi e do Boticário Chiquinho.

Sendo ágrafos, a história dos ciganos ficou registrada, em grande parte, pelas autoridades policiais que os categorizavam como ‘perturbadores da ordem’ ou por memorialistas e escritores literatos, que na maior parte das vezes os descreveram com filtros subjetivos de juízos de valor, como sujos, trapaceiros, ladrões ou então elementos incivilizáveis, inúteis à sociedade, supersticiosos, corruptores dos costumes, vândalos, enfim, uma anomalia social e racial[3]. Perseguida, essa etnia estigmatizada foi massacrada na II Guerra Mundial ao lado de muitos homossexuais, negros, deficientes e judeus.

Após a Proclamação da Independência, as elites brasileiras que "pretenderam estabelecer um reordenamento físico das cidades, higienizar as vias públicas e excluir dos centros urbanos todos os indivíduos que não se adequaram à nova ordem"[4], passam a intensificar a repressão a populações marginalizadas como a dos ciganos, que no entender desse novo caráter nacional em formação, era uma ameaça ao “processo civilizatório”. Nesse período, as diligências policiais feitas nos encalços dos ciganos resultavam em sangrentos confrontos.[5]

O confronto registrado em Indaiatuba nesse ano de 1896 não fugiu à regra. Vários jornais da Província de São Paulo narraram a “invasão dos ciganos que infestaram vários locais no interior do estado”, gerando grande movimento de tropas e importantes diligências feitas pelo D. Xavier de Toledo afim de acabar com as maltas de ciganos. 

As autoridades de Indaiatuba e Campinas pediram reforço policial à polícia da província “a fim de evitar o saque que estava iminente por aquela terrível gente”. Consta que a força pedida pela autoridade de Indaiatuba, “chegando àquela vila, conseguiram pôr em debanda um grupo de ciganos, que portavam carabinas winchester”.  Mas não sem antes travar-se um tiroteio entre as forças comandas pelo alferes Aymoré e seus 30 comandados e o grupo de ciganos[6], calculado em 400 pessoas que haviam vindo de Itu onde já haviam amedrontado a população”[7], (outra fonte informa que eram 50 ciganos[8]) entre homens mulheres e crianças, estando a maior parte montadas em ‘magníficos cavalos’. As forças armadas da Província perseguiram

... os malfeitores... foram os menos ágeis presos por um sargento do destacamento de Indaiatuba, estando no meio deles um velho em cujo poder foi encontrada a quantia de 800$. Quantia esta que lhe foi entregue pelo Dr. Chefe de Polícia, depois de ter provado que lhe pertencia aquele dinheiro. [9]

O delegado de polícia de Campinas também recebeu força do 1º batalhão da Província de São Paulo, que reunida à força local, formou um contingente aproximadamente de oitenta homens, que conseguiu capturar os ciganos fugidos de Indaiatuba, “arrecadando” deles, seis cavalos.

                Bom, não é necessário ser um especialista em linguística ou um expert em interpretação de textos para ver o que as fontes dizem: por ser um grupo previamente estigmatizado, foram recebidos à bala, os mais velhos e frágeis foram capturados, seus pertences apreendidos (e depois vergonhosamente devolvidos) e seus cavalos tomados. Não consta nas fontes nenhum tipo de reação violenta por parte das vítimas.




Notícia publicada no “The Rio News” de 22 de dezembro de 1896[10]

                Esta história de discriminação não chegou ao seu final. Os grupos ciganos ainda são pouco conhecidos e acabam negligenciados pelos governos dos territórios onde vivem[11].





[1] COELHO. F. A., Os ciganos de Portugal. Lisboa, Dom Quixote, 1995. (Original: 1892).
[2] TEIXEIRA. Rodrigo Corrêa. A História dos Ciganos no Brasil – Núcleo de Estudos Ciganos, Recife, 2008. Disponível em http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/ciganos/a_pdf/rct_historiaciganosbrasil2008.pdf (Original como tese de mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais).
[3]TEIXEIRA (2008).
[4] FRAGA F. Walter. Mendigos, moleques e vadios na Bahia do século XIX, São Paulo, HUCITEC; Salvador, EDUFBA, 1996.
[5] TEIXEIRA (2008).
[6] Jornal O Commércio de São Paulo de 19 de dezembro de 1896 -  Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
[7] Jornal Minas Geraes – 22 de dezembro de 1896 -  Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
[8] Jornal O Commércio de São Paulo de 19 de dezembro de 1896 -  Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
[9] Jornal Gazeta da Tarde, 27 de dezembro de 1896 - Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
[10] Jornal The Rio News de 22 de dezembro de 1896 – Hemeroteca da Biblioteca Nacional

[11] Difusão da história e cultura ciganas é arma na luta contra o preconceito, Texto publicado em “Sociedade”, USPonline, por Gabriela Malta Felix em 2 de dezembro de 2013.




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